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14/08/2008 :: Ecoturismo bem planejado pode ajudar na conservação de ecossistemas

Laura Rudzewicz, docente do curso de Turismo da Faculdade Anglo-Americano de Caxias do Sul e bolsista do Projeto Lagoas Costeiras da Universidade de Caxias do Sul, analisa as principais questões relacionadas ao desenvolvimento de atividades de ecoturismo em Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPNs), ressaltando a importância do planejamento para o êxito da atividade.


Mobilizadores COEP - Quais os principais preceitos do ecoturismo?

R.
O ecoturismo é motivado pelo contato do turista com a natureza preservada e as culturas tradicionais do ambiente visitado, caracterizando-se como uma experiência de caráter educativo e interpretativo. Também são preceitos do ecoturismo o uso racional do espaço, buscando o equilíbrio entre os aspectos ecológicos, econômicos e socioculturais da área; a preocupação com o mínimo impacto negativo ao ambiente natural e sociocultural, sob uma perspectiva de longo prazo; e o engajamento da comunidade local no processo de planejamento e desenvolvimento da atividade.


Mobilizadores COEP - Quais as características das Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPNs) e como a exploração do ecoturismo pode contribuir para que cumpram o objetivo de proteção ambiental?

R.
A Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) é uma categoria de Unidade de Conservação (UC) que tornou oficial, desde 1990, a iniciativa do proprietário privado de contribuir para a conservação dos ecossistemas brasileiros. A RPPN pode abranger parte ou totalidade do território de uma propriedade, sendo uma área protegida de domínio privado, integrante do Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC). Elas são áreas de relevância para a conservação da diversidade biológica ou contêm atributos naturais singulares, tendo como objetivo primordial a proteção integral dos recursos naturais. É importante atentar para o caráter voluntário da RPPN, que deve ser criada mediante iniciativa do proprietário privado, e seu caráter perpétuo ou inalienável, sendo seu processo de reconhecimento irrevogável, ou seja, se houver venda, doação ou repartição das terras, os futuros proprietários deverão se comprometer com os objetivos das RPPNs. Nesses espaços é permitido o desenvolvimento de atividades de pesquisa científica e a visitação com objetivos turísticos, recreativos e educacionais, conforme Decreto Federal Nº 4.340, de 22 de agosto de 2002.
O ecoturismo é visto como a modalidade turística com melhores possibilidades de integrar a conservação e o uso compatível do ambiente natural nas RPPNs. O ecoturismo pode ser fonte de financiamento para a área, contribuindo com benefícios socioculturais e econômicos às comunidades residentes e do entorno das RPPNs. Na questão ambiental, o ecoturismo pode servir de instrumento para a conservação dos ecossistemas, assegurando a proteção das espécies a longo prazo, pois é uma atividade que utiliza indiretamente os recursos naturais e culturais da área, transformando-os em atrativos turísticos. Portanto, é uma atividade que necessita manter a integridade do ambiente natural para que o ecoturismo possa continuar existindo.


Mobilizadores COEP - Que atividades de ecoturismo podem ser realizadas nas RPPNs?

R.
Atividades como caminhadas, trekking (trilha pré-estabelecida onde os integrantes das equipes recebem uma planilha contendo os trechos a serem seguidos, suas velocidades e distâncias), observação de fauna e de flora, contemplação, safáris fotográficos, práticas de educação e sensibilização ambiental, expedições científicas, cursos e treinamentos, entre outras.


Mobilizadores COEP - As comunidades que residem no entorno das RPPNs podem se beneficiar das atividades de ecoturismo? De que forma? E o turista? Que retorno ele obtém?

R.
Certamente o ecoturismo nas RPPNs pode trazer incentivos ao desenvolvimento das comunidades inseridas nesses espaços ou no entorno. Podemos verificar exemplos em que há participação da população local ocupando empregos diretos no turismo associado às RPPNs, mas também através de parcerias diversas: agências e operadoras de turismo local, guias de turismo, serviços de hospedagem, alimentação, artesanato, transporte. O ecoturismo também pode impulsionar o desenvolvimento de outros setores da economia que estão indiretamente relacionados com o turismo: comércio, agricultura, pecuária, etc. Um exemplo em RPPNs pode ser o engajamento de produtores rurais da região, pois seus produtos podem ser utilizados para alimentação dos turistas, bem como serem oferecidos em forma de compotas, geléias, biscoitos, pães, etc.
O turista se beneficia por ter a oportunidade de acesso à uma Unidade de Conservação, ou seja, um ambiente com grande potencial de atrativos turísticos naturais preservados - condição fundamental para o desenvolvimento do ecoturismo. Dessa forma, o turista obtém a satisfação das suas necessidades e expectativas, pois o ecoturismo em RPPNs oportuniza um contato mais próximo com a natureza e com a comunidade local, se refletindo na qualidade da experiência do visitante. Através das atividades educativas e interpretativas, as práticas ecoturísticas podem tornar turistas e residentes mais sensibilizados para as questões ambientais, estimulando-os a uma nova relação com o ambiente.


Mobilizadores COEP - Quais os principais cuidados que o proprietário deve tomar ao desenvolver o ecoturismo nas RPPNs?

R.
As atividades turísticas devem ser desenvolvidas em harmonia com o objetivo primordial das RPPNs – a conservação da natureza – e, portanto, é necessário priorizar práticas que causem o mínimo impacto negativo ao ambiente visitado e às comunidades envolvidas. Para isso, o planejamento e o manejo adequado da atividade ecoturística são essenciais, visando integrar os interesses conservacionistas da área, das comunidades engajadas e dos turistas.


Mobilizadores COEP - O planejamento das atividades é considerado fundamental para se implantar o ecoturismo em uma RPPN. Que aspectos que esse planejamento deve levar em consideração?

R.
O planejamento e o manejo adequado são fundamentais para que o desenvolvimento do ecoturismo em RPPNs seja bem-sucedido. O proprietário deve buscar apoio técnico especializado, preferencialmente realizado por uma equipe interdisciplinar, que integre profissionais qualificados de diferentes áreas: turismólogos, biólogos, geógrafos, sociólogos, entre outros. A crescente possibilidade de estruturas de apoio voltadas às RPPNs e outras formas de cooperação são hoje tendências, trazendo fortalecimento à categoria e integrando associações regionais de proprietários de RPPNs, Confederação Nacional das RPPNs (CNRPPN), organizações não-governamentais, instituições de ensino e pesquisa, iniciativa privada e diversas outras entidades. O proprietário e as comunidades envolvidas devem participar ativamente de todas as etapas desse processo de planejamento e manejo do ecoturismo, para que sejam integrados os diferentes interesses. É importante verificar que não há um modelo de planejamento turístico em RPPNs, pois este deve levar em consideração as características ecológicas, sociais e econômicas de cada área em particular.


Mobilizadores COEP - Como podemos identificar se o ecoturismo está sendo realizado de forma adequada? Que prejuízos ele pode acarretar ao meio natural?

R.
Para identificar se o ecoturismo está sendo realizado de forma adequada é necessária a adoção de instrumentos de avaliação e monitoramento, a exemplo dos estudos de impacto ambiental, estimativas de capacidade de carga da visitação e sistemas de gestão responsável. Os benefícios e prejuízos advindos da atividade ecoturística precisam ser constantemente avaliados e monitorados para que sejam adotadas as estratégias condizentes com a situação, antes que se tornem problemas irreversíveis.
O turismo realizado de forma inadequada pode trazer prejuízos ambientais tais como: poluição (das águas, do ar, sonora, visual), contaminação das águas e do solo (Ex: lixo, esgoto, uso de veículos), erosão, desmatamento, queimada, estresse e mudança no comportamento dos animais, degradação da vegetação, propagação de doenças e pragas às plantas e animais, introdução de espécies exóticas, alteração da paisagem, perda da qualidade do ambiente, saturação do atrativo natural.


Mobilizadores COEP - Você visitou várias RPPNs que promovem o ecoturismo no Brasil. Onde a atividade é mais intensa? Que atividades são mais desenvolvidas e com que resultados?

R.
Conforme pesquisa realizada para minha dissertação de Mestrado, defendida em 2006, todos os sete biomas brasileiros
apresentaram RPPNs que promovem o ecoturismo, porém, o maior número delas está na Mata Atlântica, no Pantanal e no Cerrado, respectivamente. As atividades ecoturísticas mais desenvolvidas nas RPPNs são a observação de animais, as trilhas interpretativas (informam e sensibilizam os visitantes para a compreensão da temática ambiental), os programas de educação ambiental para visitantes e para a comunidade local, cursos, treinamentos e arvorismo (travessia entre plataformas montadas no alto das copas das árvores, onde os praticantes fazem um percurso suspenso, ultrapassando diferentes tipos de obstáculos como escadas, pontes suspensas, tirolesas, etc). Nas áreas de entorno das reservas foram enumeradas atividades como: sandboard (descida de dunas de areia sobre pranchas), trekking, cavalgadas, cursos, treinamentos, pesca esportiva, cicloturismo e outras atividades de turismo rural e de aventura.
Isso demonstra que predominam as atividades de mínimo impacto ao ambiente natural nas áreas designadas como RPPN. No entanto, na maioria das vezes, são práticas pouco coordenadas e monitoradas, ainda distantes dos preceitos do ecoturismo, predominando a ausência de planejamento e manejo ambiental nesses espaços.


Mobilizadores COEP - É possível dizer que o ecoturismo ajudou essas propriedades em sua missão de conservação do ecossistema? De que forma?

R.
No aspecto econômico, o ecoturismo mostrou-se lucrativo para 57% das RPPNs estudadas, retorno conseguido por meio das atividades turísticas desenvolvidas, apesar do investimento inicial em equipamentos/serviços turísticos ainda não ter sido alcançado em 79% dos casos. Isso mostra que o turismo não pode ser visto como uma atividade que traz retorno financeiro imediato, mas uma atividade capaz de proporcionar benefícios econômicos, e também sociais e ambientais, numa perspectiva de longo prazo. Destaco esse aspecto pois a pesquisa que realizamos mostrou que a viabilidade econômica das reservas é fator limitante, tanto para fins de conservação, quanto do desenvolvimento do ecoturismo. Para suprir essas dificuldades, as RPPNs estudadas apresentaram foco na diversificação das atividades, permeadas pela lógica de mínimo impacto ambiental e pela busca por alternativas de desenvolvimento local aliadas à conservação, demonstrando que o ecoturismo compreende apenas uma das opções integradas neste processo. No estudo realizado, as atividades complementares encontradas no entorno das RPPNs foram: artesanato, apicultura, agricultura orgânica, reflorestamento, educação ambiental, cursos, viveiros de mudas e outras formas de turismo agregadas. Outra tendência verificada foi a busca de apoio ou cooperação entre os envolvidos, trazendo fortalecimento às RPPNs.
No entanto, acredito que o ecoturismo possa ser instrumento de conservação dos ecossistemas nas RPPNs, mas, para que isso ocorra, é necessário planejamento e monitoramento das atividades turísticas, numa perspectiva de longo prazo. Isso é condição fundamental para que exista ecoturismo, pois esse segmento tem o compromisso de satisfazer a conservação dos ecossistemas, uma vez que a natureza preservada é o elemento motivador deste tipo de turista.


Mobilizadores COEP - Você poderia citar alguma experiência considerada exemplar no desenvolvimento do ecoturismo em RPPNs?

R.
Entre as RPPNs estudadas, emergiram exemplos bem-sucedidos de práticas que seguem os preceitos do ecoturismo, mediadas pelos princípios da sustentabilidade, com objetivo de efetivar sua contribuição à conservação dos ecossistemas. Alguns desses exemplos são:

· RPPN Ecoparque de Una – Una, Bahia: de propriedade do Instituto de Estudos Socioambientais do Sul da Bahia (Iesb), em parceria com a ONG Conservação Internacional do Brasil (CI), é um projeto que implementou o ecoturismo como uma alternativa para o desenvolvimento socioeconômico da região, com a preocupação da conservação ambiental no entorno da Reserva Biológica (Rebio) de Una. É uma das RPPNs que apresentou atividades de monitoramento e avaliação dos impactos, delimitação da capacidade de carga da visitação, assessoria e orientação no planejamento, na formatação e operação de atrativos e equipamentos turísticos, orientado pelas possibilidades de patrocínios e apoios diversos e de recursos financeiros próprios. É uma das RPPNs mais visitadas entre as estudadas;

· RPPN Fazenda Vagafogo – Pirenópolis, Goiás: de proprietário privado, alia práticas turísticas (ecoturismo e turismo de aventura) a um diferenciado serviço de alimentação, como o brunch (do inglês, breakfast, café da manhã e lunch, almoço, é um tipo de café colonial) e a venda de produtos artesanais, provenientes da agricultura orgânica da própria área de entorno. Apresentou-se como a RPPN que recebe maior fluxo de visitantes entre as estudadas. As condições bem-sucedidas da Vagafogo são justificadas pelas parcerias com ONGs, na implementação e no manejo da RPPN; com universidades, por meio da pesquisa científica; e com operadora de ecoturismo local. Na Vagafogo, situada a apenas seis quilômetros do centro do município de Pirenópolis, a atividade ecoturística começou a se desenvolver por força da acelerada demanda de turismo no município. O planejamento foi primordial para a organização e o controle da crescente atividade turística na região;

· RPPN Salto Morato – Guaraqueçaba, Paraná: de propriedade da ONG Fundação O Boticário de Proteção à Natureza, também está entre as três reservas mais visitadas da amostra. É uma das iniciativas de referência nos estudos sobre RPPNs, integrando o ecoturismo, a pesquisa científica e a realização de cursos e treinamentos ligados à temática conservacionista. Essa última atividade tem se mostrado significativa para a divulgação da área, estimulando a busca por estratégias de conservação efetiva para a região onde se encontra, considerada de grande importância ecológica, nos limites da APA de Guaraqueçaba. Além disso, a RPPN contou com apoios de ONGs, instituições de ensino e pesquisa, Fundo Brasileiro para a Biodiversidade, e implementa importante Programa de Voluntariado.

Portanto, verificou-se que as RPPNs que obtiveram algum tipo de apoio ou parcerias, principalmente no planejamento e manejo da área, têm demonstrado melhores condições de realizar seu objetivo de conservação ambiental aliado ao ecoturismo.


Mobilizadores COEP – A partir das experiências pesquisadas seria possível indicar um modelo a ser seguido no que diz respeito a ecoturismo em RPPNs?


R.
Diante da complexidade das RPPNs e dos desafios enfrentados pelos proprietários e envolvidos com o tema, principalmente no financiamento das áreas protegidas, ainda não é possível apontar um modelo de desenvolvimento do ecoturismo em RPPNs. Apesar disso, casos específicos emergem nesse cenário, como os citados anteriormente, com experiências bem-sucedidas na implementação do ecoturismo, buscando formas de contribuir efetivamente para a conservação dos ecossistemas. Cada caso estudado demonstrou suas próprias possibilidades e limitações, que variam de acordo com as características de cada bioma brasileiro, a disponibilidade de atrativos, equipamentos, serviços e atividades, o tipo de visitante, a sazonalidade da visitação, as distâncias e os acessos, os aspectos históricos de criação de cada reserva e o contexto regional em que se inserem. Portanto, a relação positiva entre ecoturismo e conservação dos ecossistemas é ainda um desafio a ser alcançado nas RPPNs, mas que já apresenta esforços de proprietários que podem servir como bons exemplos.



Entrevista concedida a: Marize Chicanel
Edição: Eliane Araújo

Esperamos que tenham gostado da entrevista. Lembramos que o espaço abaixo é destinado a comentários. O entrevistado não se compromete a responder as perguntas aqui postadas.



Fonte: Mobilizadores COEP

Autor: -


 

Comentários:

Excelente entrevista! Parabens! Gostei mesmo. E peço a todos que tiverem mais informações sobre RPPNs, experiências, etc por favor me enviem. Professor Antonio Carlos Soeiro. Email: profsoeiro@hotmail.com Tenho uma área com água doce e pretendo desenolver ali uma escola e uma RPPN. Abraços!!!
Antonio Carlos Soeiro de Sousa em (14/09/2008 14:31:00)




Para quem pretende investir numa RPPN a leitura dessa entrevista será uma oportunidade importante. A partir das indicações da Prfa. Laura os proprietários poderão com mais facilidade passar ao projeto defintivo. Neste particular sugiro a leitura da obra de Doris Ruschmann sobre planejamento do turismo. Os dois trabalhos hão se assegurar um bom começo aos estudiosos.
É o meu parcer.
J. Anchieta Correia - Ms
Jose de Anchieta Santos Correia em (01/09/2008 17:20:00)




Para quem pretende investir numa RPPN a leitura dessa entrevista será uma oportunidade importante. A partir das indicações da Prfa. Laura os proprietários poderão com mais facilidade passar ao projeto defintivo. Neste particular sugiro a leitura da obra de Doris Ruschmann sobre planejamento do turismo. Os dois trabalhos hão se assegurar um bom começo aos estudiosos.
É o meu parcer.
J. Anchieta Correia - Ms
Jose de Anchieta Santos Correia em (01/09/2008 17:20:00)




Para quem pretende investir numa RPPN a leitura dessa entrevista será uma oportunidade importante. A partir das indicações da Prfa. Laura os proprietários poderão com mais facilidade passar ao projeto defintivo. Neste particular sugiro a leitura da obra de Doris Ruschmann sobre planejamento do turismo. Os dois trabalhos hão se assegurar um bom começo aos estudiosos.
É o meu parcer.
J. Anchieta Correia - Ms
Jose de Anchieta Santos Correia em (01/09/2008 17:20:00)




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